Ramalho deslizou pelo corredor sombrio até ao relógio de ponto e introduziu o rectângulo de cartão na maquineta. Um “clique”, indiferente e mecânico, e o registo da entrada lá ficou para posterior controle. Vagaroso, deslizou até à porta da secção. Acendeu as luzes. As empregadas de limpeza já tinham acabado a tarefa e saído, notava-se pelos cinzeiros despejados e o chão aspirado e limpo. Três filas de secretárias mudas, empanturradas de processos geometricamente arrumados, esperavam pelos respectivos ocupantes, companheiros de faina de segunda a sexta. Dirigiu-se à dele, tão igual às outras que só pelo hábito a distinguiria.
Sentou-se. Na parede em frente, como um olho enorme ou um enorme abcesso, um relógio redondo e escuro dominava a sala. O ponteiro dos segundos avançava, em soluços rápidos, numa incansável e inútil perseguição. Quantas voltas não teria ainda de dar até à hora de saída?... Como sempre, ele fora o primeiro a chegar. E, como sempre, seria o primeiro a sair. Bem, não era verdade. Só tomara esta atitude - sair à hora marcada houvesse o que houvesse para fazer - depois de muitas injustiças de que se sentira vítima. Ele era um bom profissional, pensava ainda com aquela pontinha de ressentimento que nunca conseguira esconjurar. Competência, rapidez e assiduidade eram atributos que nem o mais cara de pau lhe podia negar. Contudo, não tinham sido suficientes para concorrer com “outros” atributos nas promoções dos últimos anos. Ele bem sabia como as coisas funcionavam, ele é que não tinha estômago para certas manobras de bastidores nem alinhava nelas... Umas palmadinhas nas costas, uns galanteios absurdos, uns almocinhos em conjunto, enfim, umas engraxadelas convenientes, tinham-lhe sucessivamente retirado a possibilidade de aumentar o rendimento mensal. Outros tinham sido os preferidos. O Silva Santos, o chefe, esse passava a vida a lavar as mãos como Pilatos. Não sou eu quem decide. A direcção para aqui, os sindicatos para ali. Os seus colegas também merecem. Vai ver que, para a próxima, também vai ser contemplado. Olhe que, se for por mim, não falha. Mas ele, Ramalho, já tinha aprendido: tudo tretas!
Inexorável e indiferente, o ponteiro do redondo relógio da secção foi acumulando voltas partidas em soluços. Quantos anos tinham passado? Anos e injustiças, já deixara de os contar, numa indiferença rancorosa, pois só o rancor sobrara. Rancor traduzido naquela decisão inabalável: nem mais um minuto! E assim, decisão passada à prática e seguida à risca, agora saía sempre à hora, nem mais um minuto nem segundo. E, se era dos primeiros a entrar na repartição, o que o obrigava a tal era o inferno do trânsito, não o amor ao trabalho.
Abriu-se a porta de rompante e a estridente voz de Silva Santos aí estava: Bom dia, ó Ramalho! Chegava sempre com aquele odor intenso a especiaria a romper as riscas do fato escuro, o grito azul eléctrico da camisa, o saliente e grosso nó da gravata cravado nas bochechas balofas, o sorriso cínico a estalar, o anel no dedo mindinho. Vaidoso!... Se pensa que assim se faz passar por ilustre executivo... O relógio martelou nove horas sacramentais e um turbilhão de gente inundou a sala e um coro de refrões em muitos timbres disparou: Bom dia senhor Silva, como vai Ramalho, que trânsito hoje, tudo bem desde ontem? Bom dia, bom dia, bom dia. Em solo, a bichanar-lhe junto ao ouvido, escutou a novidade da manhã, todos os dias repetida: Oh Ramalho, ontem vi um filme que nem queiras saber. Metia cá uns borrachos... Uma até me fez lembrar o borrachinho do quinto andar com quem eu dei umas voltas por aí. Nem precisou levantar os olhos da secretária, era o “engatatão” do Ricardo a esfregar as mãos da “farra” da noite. Quem não o conhecia em todo o edifício? Ricardo e os seus engates, Ricardo e os seus delírios, Ricardo e o inevitável charme sobre o sexo oposto. A verdade é que ninguém o levava a sério. A verdade é que as mulheres do edifício, quando o encontravam, faziam um desvio de dois metros, mas, lá no fundo, olhavam-no com a comiseração que se tem por um último exemplar de espécie ainda pura, sem desvios genéticos nem mutações ambientais. Tudo sonhos na cabeça de Ricardo. Ainda o advertiu: Olha que o borrachinho do quinto andar é agora uma respeitável senhora casada. Mas já Ricardo abanava os ombros, Ora, o que lá foi, lá foi, não passa daqui, e adiantava pormenores escabrosos do filme da noite. Onde viste isso, na televisão?, admirou-se Ramalho. Qual, pá, é filme do clube de vídeo.
Pois era, o clube de vídeo. Ramalho desconfiava bem que havia mais de um ano que não requisitava um filme. Ainda se lembrava quando o vídeo fora novidade, quem não tinha um não era ninguém, ficava automaticamente excluído da roda de conversas, dos filmes vistos e não vistos, das trocas e não trocas, das gravações feitas e não feitas. E, afinal, tinha comprado o vídeo adiando a compra da máquina de lavar louça que Vera queria - só que ela queria a máquina de lavar louça mas queria também o vídeo, queria a batedeira nova com seis velocidades e programas extra anunciada na publicidade e queria também o microondas com prato rotativo que estava em promoção, queria, queria... Tinha comprado o vídeo. Afinal, Gonçalo, o filho, berrava que era o único da escola que não tinha vídeo, que também queria ver os filmes animados, que só os outros meninos é que viam, que só os outros pais é que compravam e alugavam cassetes, que eles lá na escola falavam, que.... Claro que, após a fúria inicial, o vídeo fora mais um aparelho esquecido no móvel, à espera de melhores dias. Pois se muitas vezes já não conseguiam ver televisão ou adormeciam, em frente ao écran, de tão cansados que andavam!... A verdade é que se compravam electrodomésticos a mais. A verdade é que se compravam coisas a mais. Compre agora e pague em seis meses sem aumento de preço. Campanha Primavera, uma viagem à Turquia para duas pessoas. Paradisíaca estadia nas ilhas Seychelles, número a sortear. Responda na volta do correio e receba um colar e pulseira com banho em ouro. Oportunidade única, tapete persa genuíno, restos da exposição do casino. As coisas que se compravam sem querer!... As coisas que se compravam e mostravam aos vizinhos e aos colegas, aos amigos e aos inimigos disfarçados de amigos, à família e aos conhecidos. Eu tenho isto, eu comprei aquilo, o meu é “top line”, custou-me tanto e a pronto. Raramente se utilizavam as ditas coisas, arrumavam-se a um canto após a rodagem, eram até um belo entulho a encher aquele metro quadrado que dava pelo nome de despensa, mas aquela satisfação do sorriso verde inveja dos amigos enroupados de inimigos e vice-versa?!... A verdade, a verdade, é que a altura de cada um se mede em metros de electrodomésticos, pelo brilho das viaturas que se possui, pela etiqueta dos fatos que se veste, pela marca da zona em que se vive, pelo local onde se passa férias. Que interessa o resto? Em verdade, em verdade vos digo, quem não alinhar neste jogo será sempre um bastardo nos reinos da terra.
(continua)
anamar - 1989
Publicado por vmar em janeiro 9, 2004 06:40 PM